Me vi escrevendo (Patricia Amorim)

um rabisco rupestre

Nós da vida


Não espero nada dos amigos,
apenas a sorte de tê-los comigo.
Não espero nada dos familiares,
a não ser a paz em seus olhares.
Mas espero da lembrança,
sempre rica em cobrança,
momentos de branca lucidez;
trago junto toda a insensatez,
carrego momentos de morbidez;
são poucos, eu sei.
Lembro dos beijos que não dei,
dos abraços pelos quais esperei,
das desculpas que não escutei;
são os nós da vida, já falei.
Uns, têm laços de fita de cetim,
outros, barbantes baratos de botequim.
Importantes ou não,
todos têm o seu nó,
que o tempo vira pó.

A astronauta


Quando criança, transbordava em criatividade e determinação: seria astronauta. As pessoas riam. Ficava confusa: adulto tem algo de desordenado. Queria ver as estrelas de perto e a Terra de longe. Nada mais real e distante.

A Visita


Todos dormem na casa da praia
E eu recebo aqui na sala
O filho de Deus.
A luz baça se incendeia em clarão
É Ele que brilha em Seus elétrons
Muito mais que dez sóis.
Falo-lhe de minha família que dorme
Ele sorri - que durmam
Falo-lhe de José e Maria
Tão lindos no filme de Zefirelli
Ele sorri - agradecido
Falo-lhe da criação do Seu Pai:
A Natureza - falo do sol, da praia,
Da angra serena que ali está
Há tantos milhões de anos
Ele sorri - feliz
Falo da vida, dos sonhos, da fé
Ele sorri - ainda
Aí falo dos homens, das guerras
Que não param, ora aqui, ora ali
Falo das usinas nucleares, ogivas,
Falo de tantos sem nada, outros com tanto
Falo de palácios e barracos
De suítes e de quartos de empregadas
Falo de dietas de baixa caloria e da fome total.
Falo de secas e de enchentes
Falo de segurança, falo de petróleo
Falo de álcool e de vinhoto
Nos rios e lagoas - falo da produção
E do supérfluo,
E aí,
Ele estende Seus dedos para que me cale
E sorri - com lágrimas nos olhos.

Uma rede na parede

Entrei pela porta dos fundos. Era uma casa modesta. Ao final do corredor havia uma sala. Uma sala com uma rede de pescador. Uma rede de pescador presa à parede no final do corredor. Na rede havia estrelas do mar, Iemanjá e cavalo marinho. Tudo junto com cheiro de maresia. Fiquei encantada com tamanha imaginação.

Verde e Branco



Minha mãeum grito ao telefone. Susto.
Olho no corredor. Minha mãe chora.
Desliga e sorri aliviada. Confusão.
Depois diz: seu pai comprou a casa. Diversão.

Para alguém que não conheço


Quero brincar de esconde-esconde
Pegar suas roupas emprestadas
Dizer que amo seus pés
Sentar no chão do banheiro enquanto você toma banho
e massagear seu pescoço e beijar seu rosto
Segurar sua mão e sair para andar
Não ligar quando você comer a comida que acabei
de fazer para mim
Te encontrar numa lanchonete para falar sobre o dia,
sobre o seu dia e rir da sua, da nossa paranóia
E te dar cds que você não ouve, ver ótimos filmes, ver
filmes horríveis.


Espere por mim morena

Foi um verão diferente, daqueles que fica pra sempre. Uma moto entrou na cidade despertando curiosidade. A moto silenciosa e eu indiferente. Era tudo preto: o capacete, a roupa e o violão ao lado. Assustei-me com o homem da moto que parou para dar passagem. Tirou seu capacete preto e vi um homem bonito, já feito na vida. Seus olhos, de um azul transparente, casaram com os meus, trazendo emoções diferentes. Perguntou meu nome. Patrícia, respondi suada. Menina bonita com nome bonito, escutei calada. Acanhada, atravessei a rua agradecida em direção aos amigos que esperavam aborrecidos. Virei para olhar o homem bonito que me observava como se seu rumo houvesse perdido. Onde eu estivesse, aquela moto passava sem pressa, me olhando com olhos de mar e um sorriso de parar para pensar. Sentada na areia da praia, numa tarde nublada, senti a presença do homem da moto com o olhar em mim fixado. Pegou seu violão calado e tocou Espere por mim morena.Olhou-me sorrindo: vou me congelar para te esperar. Sorri de volta e o homem bonito caiu na estrada para nunca mais voltar. Tive vontade de conhecer o desconhecido que deixou um vazio no meu caminho; um caminho de mistério e magia que apenas pertencia à mulher que um dia me tornaria. Quando escuto àquela canção logo imagino que o homem bonito da moto preta e olhar de mar virá me buscar, será?


http://youtu.be/WQrA2UojTtQ

FICA

Fica, se te interessa. Nada tenho, nada posso oferecer, nem sequer emprestar; mas posso me doar. Fica. Entre nessa casa de areia, pise nesse chão agreste, abrigue-se no lado onde o sol demora e deite, em minha estrela celeste. De bens materiais nada poupei, pois não sou boa em juntar coisas que as mãos podem tocar. O que acha? Fica. Às vezes me recolho pra esquecer a parte que dói em minha alma; depois me deito pra ver o dia raiar e pintar, o que sobrou de amarelo. E então....fica? Gosto da dramaturgia e apelo para ela sem pensar; mas não se preocupe, é somente a atriz querendo interpretar, fugir do estado quase sempre penoso que é o de ser, o que se é. Fica. Sou ébrio do vinho, do mais barato que houver; e após me entorpecer com sua cor elegante e sentir que por ela as palavras se soltaram sem me olhar, aproveite esse momento, navegue no meu outro lado, namore meus versos pobres, entenda tudo o que não foi possível, permanecer por aqui. Fica.