Mudanças





As mudanças, sejam aquelas forçadas pela vida ou as espontaneamente escolhidas, sempre nos levam a grandes experiências. A primeira acontece quando saímos daquele ambiente agasalhado e aprazível para um mundo nebuloso e cobrador.

Gosto das mudanças que somam, fazem crescer e trazem sentido nessa viagem que nada mais é do que um autoconhecimento. Sim, mudamos para nos conhecer melhor. Mudamos de idéia, de sexo, de lugar, de sentidos, de sentimentos, de pessoas. Mudar é atravessar, é aceitar o que não foi combinado, é nos dificultar as respostas das perguntas de sempre. Mudar é, sobretudo, um ato de coragem que requer muita ação e algum medo. E tudo começa quando nos rendemos a um desejo. Desejar é o ato preliminar do movimento. Há que se lançar um olhar atencioso e preguiçoso ao objeto desejado, analisá-lo cuidadosamente para não tropeçar no deslocamento a frente. Mudar requer planejamento de tempo - se for rápido demais, desanda, se for vagaroso, se perde e se congela na vontade.

Aprendi que a mudança feita a dois requer uma atenção redobrada. É como um plano de negócios onde se avalia os riscos e as garantias. Alcançar a mudança do outro é uma tarefa incessante de observação da alma, do pensamento, das atitudes, do silêncio e das palavras. É, em algumas situações, entender que o movimento é só seu e que não deve estar atrelado ao do outro. Perceber a mudança com o outro e do outro é saber que não há perdas, mas outros ganhos.

Mudar, afinal, traz algo de mágico, um quê de esperança na inércia, uma sobriedade diante da embriaguez da incerteza. É, sem dúvida, uma batalha que engrandece. É transformadora. Deixa pra traz o que ficou apertado e te convida a experimentar outros figurinos sem que se perca o fio da essência. É um ato de fé, de saber que fizemos o melhor, mas que ainda há muito por fazer.

2020 - as novas roupas quando o mundo parou


 

  




      Acordo. Observo ao redor sem saber se a roupa do dia será de desânimo ou de alegria. Os dias seguem assim – ora oração, ora reclamação. Levanto com meu pijama sem nome e paro, como de costume, no meu oratório. As conversas passaram a ser tão longas que se fez necessário a encomenda de um genuflexório. O marceneiro, um senhor esguio e muito católico, comovido pela urgência das minhas conversas com o Divino, confeccionou meu pedido em admiráveis dois dias. E assim, me ajoelho em respeito aos santos e anjos que ali me guardam, e peço, canto e escuto a belíssima prece escrita por Fernando Pessoa na voz da Maria Bethânia. Choro. Sempre choro quando rezo. Minha fé, sempre inabalável, nunca esteve tão próxima; e minha casa, meu templo sagrado. Os cheiros que nela imprimi, continuam, mas os dos amigos, sumiram. 

     Meu repertório musical nunca esteve tão oscilante. As vezes acordo com um flanco engraçado onde só cabe Martinália e afins; outros dias, me visto de linho branco e passo o dia tomando chá de boldo com os anjos em uma linda sala envidraça ao som dos cânticos gregorianos. 

    Penso que viver é um pouco mais do que simplesmente continuar tentando. Meu crescimento sempre fora feito de remorsos, mas nesses tempos incertos, ganhou um certo sofrimento e muito reconhecimento. Inexplicavelmente os dias voam como lampejos enlouquecidos. Invento sotaques diferentes para ser múltipla, troco as cores das paredes dos quartos, mudo os quadros de lugar, arrumo as roupas já arrumadas e fujo como nunca das perguntas que me desconectam de alguma certeza que já tive. Somos um grão de poeira feitos de arrogância e de medo. Mas sigamos, pois somos seres deslumbrantes de diversas maneiras.

    Olho pela janela. O tempo é uma ideia que só existe quando o desejo acaba. Sim, sou uma mentirosa que não menti e que deseja fugir sem sair de casa. Fugir da saudade de mim. Abro o armário. As roupas me espreitam. Oxalá hoje me vista de gratidão.